Na Microsoft, Ballmer parte para o ataque
João Luiz Rosa, de São Paulo
15/10/2008
Nesses tempos de crise, é um alívio falar com Steve Ballmer. O executivo-chefe da Microsoft - a maior fabricante de software do planeta - fala alto, faz piadas, dá murros na mesa, espicaça os concorrentes sem dó. É um "show man" de irrefreável bom humor.
Marisa Cauduro/Valor
Ballmer, da Microsoft: "As pessoas perguntam como vamos concorrer com o Google e não como o Google vai concorrer conosco"
O desempenho recente da Microsoft explica, em parte, porque esse bilionário de 52 anos - ele é dono de uma fortuna pessoal estimada em US$ 15 bilhões, o que o coloca em 43º na lista dos homens mais ricos do mundo - parece sempre tão efusivo.
Em junho, a Microsoft encerrou seu ano fiscal 2008 com uma receita de US$ 60,4 bilhões, o equivalente a um aumento de 18,20% sobre a receita de 2007, enquanto o lucro líquido saltou 25,7%, para quase US$ 17,7 bilhões. E isso considerando que seu carro-chefe, o sistema operacional Windows, teve problemas na estréia. "É, tivemos algumas dificuldades no início", reconhece Ballmer.
Mesmo derrotas recentes que abalaram a confiança na companhia parecem, agora, mostrar um lado positivo. No início do ano, a Microsoft iniciou uma campanha para comprar o Yahoo, em um negócio avaliado em US$ 50 bilhões. Ballmer insistiu na compra, mas não conseguiu fechar o negócio. Se tivesse obtido sucesso, a Microsoft teria se comprometido a pagar US$ 33 por ação do Yahoo, um papel que ontem chegou ao fim do pregão negociado a US$ 12,65.
"Se estou aliviado?", diz Ballmer, com um sorriso irônico. "Eu não diria disso. Parte do acordo seria pago com nossas próprias ações, que também tiveram queda. Então, o valor não seria o mesmo", observa. "Mas vamos dizer que, hoje, eu não ofereceria os US$ 33 por ação."
Até em relação à bolsa, o termômetro mais sensível da crise financeira, a Microsoft não tem muito do que reclamar. Os papéis da empresa acumulam queda de 18,93% nos últimos 12 meses, mas o desempenho ainda está bem acima da média do mercado. No mesmo período, o índice Nasdaq caiu 36,59% e o Dow Jones, 33,93%.
Mas independentemente do desempenho de suas ações e de quanto teria de pagar pelo Yahoo, o fracasso da Microsoft em fechar a aquisição remete a uma das questões mais importantes para a companhia: qual será a estratégia de Ballmer para enfrentar o Google, que domina o negócio de busca e a publicidade on-line?
Para começar, não há nenhuma chance imediata de retomar as negociações com o Yahoo, diz Ballmer. "Colocamos um preço sério na mesa e, depois, buscamos uma parceria específica na área de busca. O Yahoo considerou que isso não fazia sentido para eles e respeitamos a decisão", afirma.
Agora, é preciso esperar. O Yahoo e o Google aguardam uma decisão das autoridades regulatórias americanas em relação à sua própria tentativa de acordo na área de busca - "o que provavelmente não tem muitas chances (de acontecer)", provoca Ballmer. Só depois de uma decisão, e supondo que o negócio seja recusado, é "que talvez faça sentido reiniciar as conversas", diz o executivo.
Como, então, lidar com o Google? "As pessoas perguntam como nós vamos concorrer com o Google, mas não perguntam como o Google pretende concorrer conosco", argumenta Ballmer.
O Google tem um "excelente" serviço de busca, um segmento no qual tanto o Yahoo como a Microsoft caminham atrás, reconhece o executivo. Mas a internet vai além da busca e em muitos dos demais segmentos, como correio eletrônico e mensagens instantâneas, é a Microsoft que está na frente, diz Ballmer. "Eles têm produtos muito inferiores de processador de texto e planilha eletrônica, por exemplo", afirma o executivo. "O (recém-lançado navegador de internet) Chrome é um produto medíocre", prossegue Ballmer. "É muito pesado e demora para o usuário fazer o download."
As aquisições são sempre um caminho para a Microsoft e a companhia pode estar estudando uma ou duas compras, diz o executivo, fazendo mistério. Mas não se espere uma grande aquisição, como a Research in Motion (RIM), a companhia canadense que fabrica o celular BlackBerry. "A resposta específica em relação à RIM é que não, não estudamos uma compra", afirma Ballmer.
O executivo elogia os produtos da RIM, mas diz que a estratégia da Microsoft na área de comunicação e dispositivos móveis passa longe da produção de equipamentos. Como na indústria de computadores, em que a Microsoft tornou-se dominante sem fabricar um único PC, Ballmer quer colocar os programas da companhia em aparelhos de diversos fabricantes. "Queremos fechar alianças com os fabricantes, não nos tornarmos um deles."
Em relação às aquisições, o foco da Microsoft será mantido no que Ballmer chama de companhias "menores" - aquelas com valor de mercado de até US$ 1 bilhão.
Aos 52 anos de idade, Ballmer é o executivo-chefe da Microsoft desde 2000, mas foi só a partir de junho desde ano que ele passou a conduzir a companhia sem ter o co-fundador Bill Gates ao lado. "Ele se aposentou de verdade e só vem à empresa umas quatro ou cinco vezes por mês", diz. Parte das tarefas de Gates é trocar idéias com a equipe responsável pelos produtos de busca na web.
Sem Gates, Ballmer terá importantes decisões pela frente. Em seus laboratórios, a Microsoft prepara a nova versão do Windows. A companhia quer evitar os erros do lançamento do Vista, em que problemas de compatibilidade provocaram reações negativas dos usuários. O episódio, diz Ballmer, está parcialmente superado. "Em todo o mundo, já existem 180 milhões de usuários do Vista. A velocidade de adoção do sistema é a mais rápida desde o Windows 95. Além disso, o principal concorrente do Vista é o XP, que também é nosso. Isso não é nada ruim", diz, antes de outro sorriso.
Apesar da crise, executivo enfatiza oportunidades
Manuela Rahal, de São Paulo
15/10/2008
Com a trilha sonora do clássico do cinema "Rocky", Steve Ballmer, executivo-chefe da Microsoft, subiu ao palco, na manhã de ontem, para uma palestra em que ressaltou a importância de uma área de tecnologia da informação (TI) dinâmica dentro de cada empresa. Ballmer falou sobre o tema em um evento organizado pela companhia em São Paulo, com a participação de mais de dois mil profissionais da área.
De acordo com Ballmer, um setor de TI dinâmico teria como principal função investir em novas tecnologias com eficiência e a um custo razoável. Durante sua apresentação, o executivo enfatizou que esta proposta faz parte da estratégia da Microsoft. Segundo ele, o conceito deve ser racionalizado e pode ser baseado em quatro pilares: virtualização do servidor, interoperabilidade e segurança, modelo de software como serviço e a experiência do usuário a partir da interface.
Dentre os quatro tópicos, dois foram mais abordados: a virtualização e o formato de software como serviço. Para Ballmer, o mundo ainda está engatinhando quando o assunto é tecnologia da virtualização : "menos de 5% dos servidores no mundo estão virtualizados", disse.
O modelo de software como serviço também ganhou destaque durante a palestra. Steve Ballmer acredita que o conceito de "cloud computing", ou computação em nuvem - compartilhamento de dados e ferramentas de tecnologia pela interligação dos sistemas - é o futuro.
Por outro lado, o executivo afirma que esse formato por si só não daria certo. Para ele, o desafio para a indústria será como construir um novo modelo computacional. Sua proposta combina softwares tradicionais com cloud computing. "Eu acredito em um mundo em que os softwares flutuem na internet, mas os programas dentro do servidor também são importantes." Mesmo assim, Ballmer diz que "essa migração não vai acontecer da noite para o dia, pois o desenvolvimento de novas tecnologias e plataformas é essencial para que isso ocorra".
Enquanto um novo modelo computacional não é definido e o futuro não chega, a Microsoft aproveita para investir em outro tipo de iniciativa. Na tarde de ontem, a companhia anunciou uma parceria com o governo do Estado de São Paulo. O acordo, assinado pelo governador José Serra e pelo presidente da companhia no Brasil, Michel Levy, tem como objetivo ampliar a política de acesso à informática na rede pública estadual.
Ballmer participou da oficialização do acordo que prevê a disponibilização gratuita de 5,5 milhões de contas de e-mails para que o governo conecte estudantes e professores da rede estadual. Os endereços eletrônicos terão 5 gigabytes de capacidade e serão padronizados por medidas de segurança: aluno@acessaescola.sp.gov.br para estudantes e professor@professor.sp.gov.br.
Fonte: Valor Econômico
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